Fornecedores

Astral

Conto: o passo do escorpião

escorpiao As praias do Rio Grande do Sul são horizontais e uniformes. Abaixo do balneário de Torres, na divisa com Santa Catarina, a paisagem continua lisa e monótona até o Chuí, extremo sul do Brasil, onde a água fica ainda mais gelada, desestimulando mesmo um rápido mergulho. Só pingüim aprecia tamanha geleira! Por isto, eventualmente, o gaúcho passa o final de semana em Florianópolis - Floripa - cheia de belezas naturais, incluindo o mar tépido.

Numa destas ocasiões, hospedado em casa de amigos, fui chamado para fazer um mapa de alguém lembrado até hoje. Embora fosse um empresário bem sucedido no segmento esportivo, seu comportamento era despojado, porém com um jeito questionador, que só dava trégua após ser persuadido com sólidos argumentos. Encarnava o legítimo representante do signo de Escorpião, ou seja, alguém que conhecera os altos e baixos da vida conseguindo safar-se aliando perspicácia e garra.

Com um patrimônio material estável, não precisava mais se preocupar com a sobrevivência, tanto que, caso optasse por nunca mais voltar àquele escritório, o padrão de vida que levava não seria afetado. O desafio da segurança econômica fora solucionado há tempos, continuando a trabalhar apenas por opção, distante do sacrifício.

A vida pessoal, inobstante algumas perturbações ocasionais, também transcorria amena. É claro que nem sempre fora assim. O casamento já passara por fases bastante drásticas, ficando próximo à ruptura. Os filhos também lhe geraram muita dor de cabeça, mas tudo isto pertencia à outra época. O mais velho formara-se médico e o caçula estava no primeiro ano da faculdade de informática.

Nenhum continuaria o negócio do pai, que assimilou sem traumas esta decepção, consciente da inutilidade de apelar à imposição, ele próprio servindo como exemplo. Seu braço direito era um sobrinho, que administraria a fábrica quando a ocasião chegasse, um ponto unânime entre os familiares. Este industrial completara, há poucos dias, sessenta anos.

A questão da sexualidade e do erotismo, verdadeira obstinação para quem é de Escorpião, também deixara de gerar inquietude. Nesta área, segundo ele, sua vida conjugal, mesmo não sendo cinematográfica, continha aquelas particularidades que julgava indispensáveis, não se constituindo motivo para frustração.

Analisando este quadro, perguntei-me sobre qual a razão que levaria alguém assim a desejar seu mapa astral. Algumas pessoas dele utilizam-se para o auto-conhecimento, mas a clientela em geral o pede para saber quando irá melhorar financeiramente, como ficará sua vida sentimental, a que tipo de vocação tem maior afinidade, ou seja, anseios naturais a qualquer ser humano, sendo o padrão comum a todos, a investigação da incógnita referente ao futuro.

No caso deste senhor, alguns anos de psicoterapia haviam lhe dado boa perspectiva de sua natureza psicológica, tornando-o relativamente consciente de anseios e idealizações, não obstante persistisse forte interesse por alguns pontos de seu passado, ainda vistos como nebulosos.

Após rápida reflexão, centralizei a leitura astral no Sol em Escorpião, onde também se encontrava a Lua, fazendo-o típico modelo deste signo. A persistência em superar as dificuldades em seu casamento e com os filhos era parcialmente explicada por esta configuração. O espírito protetor característico não desiste de manter os vínculos, vitais para si, alheio a qualquer lógica ou conveniência. Aquele escorpiano apreciava a cultura, lia bastante e se interessava sobremaneira por temas além de qualquer modismo, mas que permaneciam atuais, independente de idade ou lugar.

Há pessoas com quem se deve ter especial cautela ao sugerir-lhes alternativas supostamente capazes de colorir e dinamizar suas vidas, sob pena do astrólogo dizer despropósitos. Alguns indivíduos, talvez por influência da idade, já transpuseram o patamar do estereótipo massificante: carro, romance, profissão ou algum recanto, isto tudo já tendo trazido a satisfação que poderia trazer, deixando de se constituir objeto de veneração há tempos. Mesmo assim, qualquer indivíduo sempre aspira algo, ainda que aparentemente já tenha tudo, conforme era o caso do mapa em questão. De outra forma, para que pediria a consulta astrológica? Com esta interrogação na cabeça, achei mais adequado começar a interpretação excluindo primeiro aquilo que não lhe despertava entusiasmo.

Sob este enfoque, salientei ser comum entre homens com sua idade e idêntico sucesso material, retomar a busca do ideal romântico, desta feita valorizados e escorados no prestígio que o dinheiro e o status profissional podem propiciar. Afirmava-lhe isto por que, não obstante viesse de família abastada, a fase da adolescência à meia-idade aparecia tumultuada no mapa, como se nela tivesse comido o pão que o diabo amassou, possivelmente motivado por algum ideal vivido com obstinação.

A maioria das pessoas, o caos emocional se confunde com os percalços da sobrevivência material, como se ambos estivessem intimamente ligados. No caso desta interpretação astral, até os dezesseis ou dezessete anos, o cliente havia tido relativa proteção. Nascera e criara-se dentro de uma família privilegiada economicamente. O pai era lojista e a mãe, arquiteta decoradora, ambos prestigiados e assíduos nas altas rodas, embora severos e distantes em casa. Rigidamente apegados à idéia da segurança e preenchimento que a estrutura financeira pode dar, presumiam-se eficientes nos seus papeis de provedores, ficando o resto, ou seja, qualquer outro anseio filial, relegado à irrelevância, com os limites devendo ser observados à risca pelos filhos, estes concordassem ou não.

Destoando deste meio, o escorpiano foi atraído pelo futebol desde pequeno, cujo gosto, crescente, passou a ser objeto da intolerância doméstica, mais afeita às sutilezas de ambiente social refinado. A verdade é que ele nunca teve paciência com os estudos ou regras de etiqueta. Por isto, foram tantas as brigas e discussões que, certa ocasião quando os ânimos atingiram um clímax, foi lhe exigido uma rígida adequação aos ditames familiares, sob pena de, dali por diante, não poder contar mais com nenhum tipo de apoio ou tutela vindos desta fonte.

Se há alguma coisa que as pessoas do signo de Escorpião não conseguem aceitar, dificilmente esta irá superar a aversão sentida pela imposição autoritária. Desta, ninguém gosta, porém em menor ou maior grau aprende-se a conviver com ela. Sendo um fato relativamente inevitável, tenta-se, à medida que o tempo passa, dissuadir quem se comporta autoritariamente, apelando-se às amenidades. Todavia, a diplomacia no âmbito dos relacionamentos pessoais nunca havia sido a marca pessoal deste empresário. Não é exagero afirmar, inclusive, que pautou muito de sua conduta na vã espera de pretender que os outros se adequassem aos seus postulados, raramente se flexibilizando em atitude maleável. Desta forma, conviveu somente mais algumas semanas sob o teto familiar, indo ao encontro da rua. A princípio, recebeu ajuda de amigos, depois teve que se virar sozinho.

Afora outros perfis individuais escorpianos melhor adaptados e amenos, há dois que se destacam, salientados pelos extremos comportamentais que exemplificam: o esponja e o arisco. O primeiro sorve tudo que pode, parcialmente inconsciente desta compulsão, absorvendo por inteira a pessoa que esteja a seu lado, à qual passa a lhe ser uma espécie de apêndice ou extensão, cuja vida ou identidade própria, misturada, torna-se confusa. Talvez este escorpiano tente, procedendo desta forma, estabelecer uma espécie de simbiose, embora nos estágios iniciais assemelhe-se mais a um parasitismo. Este indivíduo, ainda mal-resolvido, aparenta não ter amor próprio ou auto-estima. No entanto, pode ocorrer exatamente o contrário: os possui tanto que, não admitindo dispensa ou rejeição, persiste ligado a outrem, até finalmente ver-se valorizado e reconhecido. Move-se pelo mundo conseguindo causar constrangimento, sem que este sentimento lhe tire o sono. Sob as mais variadas formas, tolhe a vida alheia, fingindo que não se dá conta.

Abusa da afeição que desperta, mesmo assim agindo com vedetismo, sequioso de eterna compreensão e perdão, talvez querendo sentir-se perene filho de muitos pais, informalmente adotados, já que dos verdadeiros, não conservou ou não acreditou na orientação recebida. O que doa é um décimo do que recebe, mas não enxerga sob este ângulo. Mestre na autopromoção, qualquer pequeno gesto solidário seu para alguém, vira tábua de salvação, o qual deve render e merecer dividendos imorredouros!O segundo perfil escorpiano, o arisco, onde se enquadrava o dono do mapa analisado, experimenta profunda aversão a receber ajuda ou cooperação, por dupla razão. Uma é por sentir genuíno zelo e respeito pela intimidade e integridade das demais pessoas, atitude pela qual não compactua com a ação autoritária, mesmo que esta venha carregada de boas intenções. Se as intenções edificantes justificassem tudo, inclusive a intromissão nos assuntos alheios, não haveria sofrimento no mundo, já que , mais bem intencionado do que Deus, ninguém é. A outra razão reside no fato de ser extremamente consciente dos jogos e artimanhas humanos, relutando em ficar à mercê da solicitude alheia, consciente de que raramente as pessoas praticam benemerência gratuita, algo que, aceitando, poderia torná-lo refém de terceiros. O problema com este tipo de escorpiano é que ele não deseja gerar débito com ninguém, suspeitando que, caso gerasse, a conta ou fatura decorrente, quando cobrada, representaria custo n vezes superior àquele que verdadeiramente causou. É muito desconfiado, obviamente com certo fundamento.

A enumeração destes dois perfis, esponja e arisco poderá parecer simplista, porém esta dualidade não é tão rara e nem tão exclusiva às pessoas de Escorpião. Pode ocorrer com indivíduo de outro signo, em menor ou maior grau; porém, na comparação com o escorpiano, geralmente nele será mais expressivo. Inserido dentro do padrão arisco, o empresário, quando jovem, independente e orgulhoso, pagou conscientemente o preço de sua postura rebelde. Teve que se embrenhar por ruelas cada vez mais decadentes, escuras e tortas, lama e esgoto a céu aberto, lá onde o essencial e o básico viraram o natural, nenhum outro conforto ou supérfluo amenizando isto.

A maioria dos amigos se foi, uma vez que perdera o cacife capaz de acompanhá-los, sobrando um que outro. Todavia, como jamais efetivamente abriu e revelou sua intimidade e fragilidade, à superficialidade destas últimas relações, não imprimiu-se fidelidade capaz de preservá-las à bruta oscilação que lhe ocorrera. Foi assim que perdeu o gosto de freqüentar os lugares onde jogava, empurrado que fora cada vez mais à periferia, esta o engolindo. Sumiu e, no seu endinheirado meio habitual, não se ouviu falar mais dele.

O elo com a família ficou sendo o irmão mais novo. Este jamais se afastara, não conseguindo apreender o porquê da geral incompreensão. O escorpiano, a muito contragosto, aceitava seu auxílio esporádico, quando a fome apertava e os pés ameaçavam inchar, de tanta caminhada. Os pés eram sua ferramenta de trabalho. Trabalho que procurava e não conseguia. A realidade do futebol é bem diferente daquela alardeada pela mídia. Para cada craque sedutor de multidões, há milhares disputando os trocados necessários à compra do pão diário. Andou nesta penúria durante anos, alternando o barraco. Da família, nunca mais quis saber, principalmente depois do acidente do irmão, que perdera.

Fala-se muito na malícia e virulência de Escorpião. Muito pouco é dito sobre sua ternura, cuja profundidade talvez seja tão insuperável quanto imperceptível, o segredo funcionando como escudo à banalização. O amor sentido pelo irmão conseguia lembrá-lo da existência do carinho no mundo, fazendo com que ainda cresse nas pessoas, suavizando seu julgamento. Aos olhos paternos e dos círculos outrora freqüentados, ele se transformara em um maltrapilho fracassado, que perseguia glória infantil e simplória, desafiado a encontrar guarida por suas próprias pernas. Mas, perante o seu irmão, conservava a mesma dignidade de sempre. Mutuamente compreendendo-se, a única coisa que importava entre ambos era continuar dando-se bem. O que um pensava, gostava ou queria, não tinha a mínima importância, o respeito à liberdade vindo em primeiríssimo lugar. No entanto, até este poderoso elo havia desaparecido. Ficou a sensação de que a solidão estava tentando dizer-lhe algo, cujo significado relutava suspeitar. Vez por outra, na penumbra do casebre, seu escárnio se tornava incontrolável, travestido de conselheiro, esmerado em reflexões destinadas à mera chacota! Finalmente, sua amargura se extrapolou e o próprio desdém passou a significar absolutamente nada. Fora sua arma e diversão durante anos, mas não o levara a destino válido.

A falibilidade das atitudes e convicções humanas deixou de ser objeto de sua zombaria. A prepotência implícita nesta atitude, que tanto o revoltara identificada outrora no comportamento dos pais, veio-lhe à face, constrangida e raivosa ao mesmo tempo. Mesmo assim, não entendia como sua vida ruíra daquele jeito, dando-lhe a impressão de um oculto planejamento: os vínculos servindo como figurantes, combinados para empurrá-lo escada abaixo! Dizer que empurrou a si próprio não soava totalmente verdadeiro. Porque haveria de assumir solitário a obrigação de ser maleável ou diplomático? Fosse assim, ele seria outro: mais o desejado por terceiros, e menos o que realmente aspirava para si.

A pergunta que se formulava, enfim, era se estava contente com semelhante quadro. Os anos passaram e o ardor não era o mesmo. Nem a confiança na qualidade de seu talento no campo. Vira, ao longo deste tempo, muitos jogadores bem melhores do que ele, em idêntica ou pior penúria, se é que existia tal escassez. Por isto, fosse fazer análise sincera e honesta, concluiria que, no embate ou disputa pela vaga em algum time, se o requisito indispensável residisse no cru esmero futebolístico, teria chances tímidas. Os pistolões a quem poderia recorrer ficaram lá no outro estilo de vida, alcançáveis somente através de constrangedor custo, ao qual jamais cogitara submeter-se. Portanto, refletindo, o sonho de ser jogador profissional renomado se afastava e louco ficaria se não reconhecesse tal fato. O senso comum costuma dizer que o destino gosta de brincar de gato e rato com o ser humano. Através desta metáfora ou provérbio, a sabedoria popular enfatiza o inútil controle que as pessoas tentam imprimir em seus específicos futuros.

Algumas semanas após a constatação de suas reduzidas possibilidades como jogador, já atucanado em esboçar outra maneira de sobreviver, foi com surpresa que recebeu o chamado de um time do interior. A cidadezinha ficava a centos e poucos quilômetros da capital. O salário era minguado, mas parecia ser certo, raramente atrasando. Aceitou o convite. Aos pouquinhos foi se ajeitando, a auto-estima ressurgindo renovada. Entretanto, destaque significativo, estava longe de alcançar. Primeiro por que atuava na segunda divisão, portanto, longe dos holofotes da primeira, que monopoliza as atenções dos apreciadores. Segundo, por não ser tão bom como presumia, embora compensasse esta limitação utilizando técnica assaz estratégica. Deu-se conta então que talvez fosse melhor atuando como treinador, começando a investir nesta função.

Passada meia dúzia de anos, a profissão de jogador foi abandonada totalmente. Agora sobrevivia treinando times, pulando de cidade em cidade, pouco meses em uma, quase um ano ou mais em outra, sequioso de estabelecer paradeiro. Precisava ir onde estava o trabalho, nunca a recíproca. Uma moça entrara em sua vida por volta da metade deste tempo e agora a suspeita de gravidez o pegou de supetão, como se já fosse um fato consumado. Parecendo uma sina, ele não havia conseguido despertar simpatia nos sogros. Semelhantes aos seus pais, de quem o escorpiano nunca mais tivera notícias, também eram dados a fricotes e grã-finismos. Olhavam com suspeita o instável trabalho exercido pelo genro treinador, fingindo ser apenas este o motivo da antipatia, mas no bastidor, alertando a filha sobre a penúria e o desprestígio. Realmente, comparado ao padrão daquela gente, dinheiro mesmo, ele via pouco, mesmo alternando os rendimentos de técnico com outros vindos da fabriqueta de artigos esportivos, meias, luvas, tênis e chuteira, o que vendesse, iniciada quase concomitante ao ofício de treinador.

Esta atividade paralela não raro o salvara da incerteza típica ao final de cada mês: o clube onde treinava não tendo nem como quitar água e luz, quanto mais honrar salário! Prudente, não tinha empregados, já que terceirizava a confecção dos apetrechos. Uma ou duas vezes na quinzena, descia ao oco da vila, pagava a costureira e abarrotava a camioneta Brasília com as encomendas, saindo à entrega. Inteligente e obstinado, conquistara vários clientes fixos, fiéis ao seu estilo, tanto pelo preço quanto pela qualidade. O convite para treinar aquele clube gerou-lhe entusiasmo e apreensão, por vir de agremiação com relativa estrutura. A preocupação provinha da necessidade de mudar-se para longe, outro estado, mais de mil quilômetros distante.

A separação da mulher e do futuro filho ou filha, pesava-lhe bastante. Além disso, havia a questão da fabriqueta que agora já tinha um espaçozinho próprio, comprado em sociedade com a senhora que confeccionava os produtos. Porém, este não constituía o principal entrave. Estabelecera um profundo relacionamento com esta costureira, que, não tendo filhos, sendo só ela e o marido, às vezes comportava-se maternalmente com ele, compassiva adivinhando os infortúnios que vivera. Assim, mesmo longínquo, poderia tocar as vendas - o casal ficando encarregado das entregas e demais rotinas, detentores de sua confiança absoluta, outro sentimento novo que experimentava. Foi com o coração apertado que se enfiou norte adentro.

Estranhou muito o clima, mas logo se adaptou. Sentia saudade da mulher, do casal de sócios, eram estas pessoas que faziam parte de seu mundo. Três seres que talvez em breve fossem quatro, se conseguisse neutralizar a hostil ação dos sogros.No entanto, não obstante separado há poucas semanas, sentia que estava perdendo espaço: as respostas às suas cartas, falhando; sobre a indefinida gravidez, nenhuma palavra.

Certo dia, dois fatos de surpreendente sincronicidade, aconteceram espaçados por horas. Durante o intervalo do treinamento, foi procurado por um primo que estava de passagem pela cidade, onde, como treinador, o escorpiano gozava relativa notoriedade. Ficou sabendo através deste parente sobre a falência comercial de seu pai, as dívidas, o escândalo, as penhoras. Isto ocorrera há alguns anos e, consequentemente, também minguou o trabalho materno. Desde então, sobreviviam com a aposentadoria paterna, distantes das colunas sociais, esquecidos pela adulação.

Despediu-se do primo suspeitando que algo estava para ocorrer. Sempre que à noite, dormindo, sonhava com seu pai ou com sua mãe, acostumara-se a esperar notícia ruim ao longo do próximo dia, como se aqueles só vaticinassem coisas malditas! Mesmo após muito tempo, ainda não conseguia conter a tristeza sentida diante desta constatação. Como podia um vínculo tão vital sair completamente pelo inverso, pressagiando o que é mau, em vez do que é bom? - Que fizera para esta gente? - O que esta gente fez para ele? O fato era que não adiantava querer compreender tamanha desdita e, quando tentava, só conseguia ficar mais acabrunhado. Portanto, havia decidido simplesmente esquecê-los, fazendo de conta que nunca existiram, inclusive quando aparecessem nos seus sonhos.

O envelope repousava sobre a cama e ele relutava em abrir. A sensação de já conhecer o conteúdo tirava-lhe o entusiasmo e a coragem. Assim mesmo abriu, chegando ao final duvidando do que lera. Permaneceu desconcertado alguns minutos, sem vontade para se mexer, tendo como único desejo, dormir. Dormiu.

Acordou cedo, as duas folhas da carta esparramadas no assoalho. Uma fora escrita à mão e a outra, impressa em letra de forma, parecia ter sido arrancada inteira de algum livro. Juntou essa do chão, lendo-a novamente: " Há pessoas que não conseguem viver solitárias. Precisam estar sempre com alguém, deste auferindo amor e carinho. Em outras circunstâncias da vida podem demonstrar fibra incomum, mas, no âmbito sentimental, detestam suportar a inconsistência da solidão, matriz de dúvidas e inseguranças. Sentem a constante necessidade de paparicação e mimo como indispensável à consolidação de seus vínculos. Assim, a prolongada ausência do ser querido, quando ocorre, independente de qual tenha sido o motivo, primeiro traz o choro, depois o ressentimento, ambos desdenhando o amadurecimento. A aflição que sentem por estarem sós supera a dor que podem causar ficando acompanhadas, levando-as fingir que a ambígua afeição que então passam a nutrir numa dupla relação, seja algo natural. Todavia, a indefinição secreta em que passam a viver gera-lhes martírios, que solapam ainda mais qualquer rasgo de consciência ou arrependimento, dilapidando a índole e arrastando-a para a indigência.

Um segredo aqui, outra acolá, quando se dão conta esconderam quase tudo, pouco restando de verdadeiro em si para autenticamente compartilhar ". Terminou a releitura desta digressão sobre a infidelidade, provavelmente extraída de algum romance, agora dando-se efetiva conta do engodo sentimental que vivera.

Havia identificado só parcialmente as forças que lhe boicotavam o coração, supondo-as exclusivamente fora do relacionamento, corporificadas nas figuras dos sogros, jamais na própria mulher de quem gostava. Fazer-se a clássica pergunta sobre como pode iludir-se tanto, seria mera perda de tempo.

No entanto, a emoção que mais lhe apertava o íntimo vinha da incerteza quanto ao filho, mas a outra folha da carta, a que fora redigida de punho, não definia nada sobre isto, pelo contrário, dava-lhe a entender, detalhando e confundindo datas, que este não era assunto seu, o preservando e dispensando, ao mesmo tempo. Até pensou em ir tirar satisfação - fora tratado como brinquedo - mas o momento profissional era tenso, final de campeonato, e não havia dinheiro para avião. Além disso, Scórpio, quando se desilude, vê nulo sentido em lero-lero, descrente de retórica capaz de anular a contundência de um fato concreto, principalmente sendo traição. Portanto, cinco ou seis dias dentro de um ônibus, entre ida e vinda, representava tempo e desgaste excessivo para investir em diálogo com aquele pessoal, sogros, ela, o outro.

Outro. Esse nunca lhe passara pela cabeça. O melhor seria ficar quieto. Já fizera demais o papel de tolo. Entretanto, experimentou esta desilusão sem estardalhaço. Mesmo tendo sentido breve estupor, esta nova maneira de reagir à perda foi o que verdadeiramente causou-lhe espanto. Fora justo e limpo, não havendo motivo para envergonhar-se de nada.

Por algum processo psicológico desconhecido, sentia-se resgatando o senso de humor perdido na adolescência, agora bem mais positivo, sem espaço para revolta, lamúria ou menosprezo. Vários sentimentos inovadores vinham acontecendo com ele desde algum tempo. Notava que estava acordando, desencucando-se, aquela torturante sensação de complô e perseguição, sumindo. O que lhe acontecia de ruim não era mais visto como um fato gerado exclusivamente para prejudicá-lo ou puni-lo.

Sentia que não havia mais pelo quê ser punido. As transgressões que cometia não eram piores daquelas cometidas pelos outros, pelo contrário: seu primordial esforço visava evitar danos a terceiros, mas se os praticava, fazia-o sem absoluta premeditação. Aquele relacionamento teve o mérito de abrir uma espécie de torneira afetiva que se manteve, passando a viver outros romances sem desespero ou ânsia. Quanto mais mantinha a cabeça fresca, maior era o ambíguo transito no seio do sexo oposto. Entendera como ridícula a estereotipada reação de amaldiçoar o gênero feminino para todo o sempre.

No seu mundo, o radicalismo e o melodrama, conjugados, já causaram os transtornos que poderiam causar: não estava mais disposto a permitir que o prejudicassem. Até porque, aquela criatura pueril que o enganou não soube aquilatar a real extensão de quem rejeitara, auferindo-o baseada numa visão parcial, cativa de um momento, mas supondo-a imutável para sempre. A suportabilidade emocional adquirida nos anos de agrura dava sinais de que viera para ficar, temperando a alma e tratando com bondade o espírito. Não era santo, mas também não era demônio, nascera sob o signo do Escorpião, com seus prós e contras. Ninguém detinha autoridade ou direito de acusá-lo ou sentenciá-lo a nada.

Aos muitos que se investissem de semelhante e absurda prerrogativa, usurpando-o, ele perguntaria se não vislumbravam nada mais útil e feliz para fazer com suas vidas do que pretender detalhar-lhe os passos, vigiando-o como se quisessem aprender algo com ele, feito cobaia ou experimento, usado ou manipulado para poupá-los de algum inconfessável risco. Não seria mais joguete e marionete de indivíduos, grupos ou multidões, vivos ou não! Cessaria de andar esgueirado pelo mundo, furtivo, não mais pedindo licença para existir, alheio à porta dos fundos. Deixaria de sentir-se coitado, carrasco ou vítima. Seria feliz, alegre, daria amplas risadas, nenhuma pessoa ou situação conseguiria suprimir-lhe o sorriso - não havia ser no planeta que tivesse este poder ou direito! Ora, ele, atento em não proceder castradamente com os outros, por que deveria conformar-se à não reciprocidade? Era igual ao mundo inteiro, nem um milímetro diferente.

Igualíssimo! Igualissimamente idêntico, sem tirar e nem pôr! Com os mesmíssimos direitos! Esqueceu a preocupação com a identidade e concentrou a atenção nos negócios. Havia investido suas economias na fabriqueta e esta começava a dar sinais compensadores. Estava maior, lá já trabalhavam trinta pessoas, e a distância agora começava a incomodar. Precisava tomar uma decisão. O meio futebolístico era importante por que dele vinham inúmeros contatos promotores de bons relacionamentos comerciais. Decidido a distanciar-se do quadro tristonho, redobrou o empenho na disputa pela taça regional.

Sentia-se mais livre, criativo e desperto. Esta mudança repercutiu na estratégia com que movia a equipe dentro do campo, estimulando-o a sair discretamente do convencional, no que obteve retorno compensador: sagrou-se vice-campeão. Este feito gerou o prestígio necessário para que fosse convidado a treinar um clube em seu estado natal, para onde retornou, melhor empregado. Assim, perto, a fabricazinha converteu-se no império que comandava hoje.

Como técnico de futebol, nunca saiu da segunda divisão, acabando por abandonar este ofício. O casamento com a atual mulher deu-se pouco tempo antes dessa decisão. Após escutar a trajetória da vida do empresário, a qual interrompia esporadicamente para lhe aclarar alguma particularidade de sua personalidade astrológica, presumi qual era a época da sua vida que ele desejava investigar. Parecendo adivinhar minha suposição, o empresário surpreendeu-me dizendo que há poucas semanas fizera seu mapa astral com renomado astrólogo vindo de um país castelhano.

Este astrólogo, segundo o escorpiano, assombrosamente lhe detalhara as principais datas ocorridas consigo ao longo de seus sessenta anos, deixando-o impressionado com a exatidão daquele enfoque. No entanto, o que mais despertou sua curiosidade e apreensão foi o fato de que, nos anos analisados, aparecia com destaque aquele período no qual sofrera a decepção amorosa.

O astrólogo estrangeiro captou a rejeição afetiva, mas presumindo que fora assimilada sem grande desespero por parte do empresário escorpiano, uma vez que algo de muito significativo permanecera com ele, preenchendo um afetivo espaço. Pensando assim, o astrólogo argentino gerou espanto no empresário ao perguntar-lhe, à súbita entrada de seu sobrinho na sala, qual era o signo deste, equivocadamente crendo-o como o filho nascido daquele relacionamento.

Esta referência martelava a cabeça do industrial há dias e, conforme disse-me, o astrólogo argentino, após ser informado de seu engano, continuava taxativo quanto à indicação de nascimento de criança no seu mapa astral àquela época, apenas dizendo não conseguir especificar se era menino ou menina. Para o escorpiano, se era homem ou mulher, isto era secundário, embora também relevante. O que lhe importava mesmo era saber-se pai ou não daquela criaturinha, hoje adulta. Para tanto, estava disposto a encontrá-la, conhecê-la e constatar se havia alguma semelhança entre ambos. Neste objetivo, sendo preciso, recorreria ao exame de DNA, à Justiça, a tudo que fosse necessário: não tinha como deixar este fato em branco. Era algo que estava além de qualquer raciocínio ou consideração.

Portanto, disse, chamara-me com o intuito de ouvir ou não a confirmação daquela leitura astral, embora intimamente já estivesse convencido, não acreditando que fosse simples coincidência. Mesmo nunca tendo ouvido falar de meu trabalho antes, ou seja, eu lhe era um completo desconhecido, a pessoa que me indicou gozava de sua admiração, motivo pelo qual resolveu arriscar-se a ouvir uma outra leitura astral de seu mapa.

Assim, sem nada para corrigir ou acrescentar à leitura astrológica do colega estrangeiro, confirmei-a plenamente, um tanto contrariado, mas controlando meu despeito! A vaidade, acima da verdade, já me aprontara poucas e boas em outras ocasiões. O empresário, perceptivo, fingiu que nada notou, compreensivo e compassivo, revelando perspicácia e grandeza características de seu signo.

Voltei para os livros. Muito tempo depois, fiquei sabendo que ele encontrara e passara a conviver, após inúmeros e inevitáveis sobressaltos, com a filha, felicíssimo!Deve ser uma emoção muito bonita, semelhante descoberta e reconciliação, pensei.

Indescritível, conforme disse quem teve a boa sorte.

Júlio Flores - juliopeixes@hotmail.com

Gostou? Compartilhe:

Deixe seu comentário




Comentários

CaseBem 2012
Desenvolvido por Agente Web e NsDigital