“Anita morena / da pele macia / amante de noite / soldado de dia”, entoava a cantora em plena praça pública de Laguna, convidada para as comemorações ao 150º aniversário da morte de Anita Garibaldi, no dia 4 de agosto de 1999.
Além da textura da pele da companheira mítica do revolucionário Giuseppe Garibaldi, um devaneio poético do autor da canção, o verso colocava a dualidade mulher/guerreira, traço mais espetacular da maior – e mais desconhecida – figura histórica de Santa Catarina.
Perdida nas brumas de um tempo quase sem registros, em muitas ocasiões deliberadamente manipulada pelos interesses políticos de quem relata os fatos, a biografia de Ana Maria de Jesus Ribeiro talvez esteja destinada a permanecer envolta nos mistérios que impedem uma visão multifacetada de perfil, como acontece com os grandes mitos.
Simplesmente não há registros, e muito do que sabemos chegou pelas vias, nem sempre confiáveis, da tradição oral.
Sua entrada na História deu-se a partir da união sentimental com o republicano Giuseppe Garibaldi, um revolucionário italiano que esteve entre os líderes que proclamaram a República Riograndense, no RS (1835/1845), e a efêmera República Catarinense, com a Capital em Laguna, em 1839.
Este fato levanta uma grande questão: sua fúria guerrilheira contra o Império foi real, ideológica, ou lutou ao lado dos revoltosos na utopia republicana sulista em defesa do amor irrestrito que devotava a Garibaldi? Nos relatos mais atuais de sua saga, há muitos relatos da bravura nos campos (e mares) de batalha, mas o amor pelo marido é o que mais impressiona estudiosos e biógrafos.
“Ela lutou bravamente pelo amor desse homem”, conta o jornalista Celso Martins, autor do livro Aninha Virou Ana, publicado em 1999, ano do sesquicentenário do nascimento de Anita, ele mesmo um lagunense.
Infelizmente, sua origem humilde contribui para o desconhecimento da história como ela realmente aconteceu, principalmente no período em que o casal esteve na América do Sul.
Nem mesmo o local de nascimento daquela que viria a ser conhecida como Heroína de Dois Mundos é consenso entre os historiadores.
Apesar de Lages ser a origem da família paterna e terra natal de alguns irmãos, as maiores probabilidades são de que seu nascimento tenha ocorrido na região compreendida entre Laguna e Tubarão, em 1821.
Quando conheceu Giuseppe, aos 18 anos, seu primeiro casamento, com o sapateiro Manoel Duarte de Aguiar, em 1835, já havia acabado.
Como? Outra imprecisão histórica.
Alguns estudiosos afirmam que ele aderiu às tropas legalistas, que defendiam o Império, quando Laguna foi tomada pelos revolucionários que lutavam pela proclamação da República Catarinense.
Outros dizem que foi Garibaldi quem mandou matá-lo, para que pudesse ficar com a viúva.
Para esse primeiro casamento, sabe-se que Anita alugou o vestido e os acessórios num pequeno comércio que havia na casa que, um século depois, abrigaria o museu que preserva sua memória.
Hoje, é a Casa de Anita.
Celso Martins relata em seu livro como ela se apresentou ao oficiante: “No dia 30 de agosto de 1835 Aninha vestiu uma saia de filó azul claro com pregas e muito rodada, cheia de tiras escuras, estreitas e estampadas de espaço em espaço.
Entre as tiras, havia uns pontinhos bordados e retrós preto mercerizado.
O corpete, da mesma fazenda, era guarnecido de barbatanas, formando um bico na frente, mangas compridas com um grande fofo nos ombros.
Calçou os sapatos de camurça branca, simples, lisos, com um tufozinho de seda branca na frente e salto não muito alto e redondo”.
Chique, não? O desfecho desse primeiro casamento de Ana seria usado, mais tarde, para denegrir sua imagem.
Durante todo o Segundo Império, até a Proclamação da República, a história oficial não citava seu nome.
Nos meios populares, no entanto, permaneceu a reputação moralista, pouco lisonjeira de “mulher fácil, que larga o marido para seguir um bandido”.
Celso explica que “a história sempre é contada pelos vitoriosos e, como a causa deles foi derrotada, a versão que ficou foi a pior possível”.
Quando e como Anita e Giuseppe teriam se encontrado pela primeira vez? A historiografia revela muito pouco de preciso, mas abundam versões.
Acredita-se que ele teria feito uma declaração arrasadora, que estremeceu o coração da mulher, quando a encontrou pela primeira vez na casa do tio, no outro lado do canal que liga o mar à lagoa de Santo Antonio dos Anjos: “Virgem criatura, tu serás minha!” A lua-de-mel foi a estréia de Anita como guerreira.
Ela era enfermeira no corso a navios imperiais promovido pelo intrépido marido na costa de Santos.
Após o insucesso da operação, na volta perderam um dos três navios de guerra na altura do arquipélago do Arvoredo.
Depois de novas escaramuças e batalhas perdidas, o casal, com o primeiro filho Menotti, foge para o Rio Grande do Sul pelo planalto serrano (ela ficou presa um tempo em Curitibanos).
Reencontraram-se em Vacaria, e depois de um tempo de entreveros na República Rio Grandense, fugiram para o Uruguai.
No país vizinho, residia uma colônia italiana politicamente expressiva, que lutava para conter os avanços do ditador argentino Rosas.
Lá, em 1842, Anita finalmente legalizou sua relação com Giuseppe.
Não se sabe como – ligações com a maçonaria? -, apareceu uma certidão de óbito do primeiro marido e a união civil foi realizada em Montevidéu.
Data dessa época a mais popular representação iconográfica da heroína, um desenho de seu rosto moreno feito pelo pintor Gallino, em 1845.
Do casal, nasceram outros três filhos, sendo que uma menina morreu ainda no Uruguai.
Após ter participado das lutas pela reunificação da Itália, o que lhe valeria os títulos de Mãe da Pátria e Heroína de Dois Mundos, ela morreu atormentada por febres, grávida do quinto filho, em Mandriole, na região de Ravena.
No período em que aterrorizava a Europa, na Segunda Guerra Mundial, o ditador fascista Benito Mussolini, que nada tinha a ver com as posições políticas do casal Garibaldi, transferiu seus restos mortais para um imponente mausoléu, no centro de Roma, uma história no mínimo rocambolesca.
Lá também o culto aos mortos (mas só dos emblemáticos) garantia dividendos políticos Entretanto, não acuse somente Mussolini por aproveitar-se de um cadáver com propósitos pouco louváveis.
O amado Giuseppe, na mobilização popular para a reunificação da Itália, andava com o corpo da mulher “para cima e para baixo” da bota italiana, dando início à construção do mito internacional.
Mais ou menos como se passou na vizinha Argentina, que assistiu às peripécias do cadáver de Evita Perón por meio-mundo, durante uns 40 anos.
No Brasil, o lugar de Anita na historiografia ainda não tem a dimensão de sua figura histórica.
Após a Proclamação da República, iniciou-se um débil resgate, insuficiente para inscrever seu nome no panteão dos memoráveis.
Mesmo em seu estado natal, ainda prevalece uma ignorância absurda sobre sua importância histórica.
A falta de registros é o principal obstáculo.
Talvez tão grande quanto à sua condição de mulher.
Todos sabemos que a Histórica é avara em reconhecer valores femininos.
Ainda mais quando sua trajetória está ligada à de um segundo marido.
Não é sem razão que seu principal “pecado” foi o de ter “abandonado” o primeiro.
Em Santa Catarina, o primeiro a tentar desmistificar o mito foi o positivista republicano José Boiteux.
Conta-se que, ao visitar Laguna na primeira metade do século XX, ficou escandalizado com a utilização da casa que abrigaria, anos mais tarde, o Museu Anita Garibaldi.
É a mesma onde Anita alugou o vestido e recebeu os convidados ao seu primeiro casamento.
Ao invés de um lugar histórico, encontrou um movimentado bordel.
Em tempos mais recentes, o trabalho de recuperação histórica do arquiteto germano-suiço Wolfgang Rau é imbatível.
É a maior autoridade mundial sobre esse assunto, reconhecido até na Itália como tal.
Recentemente, tudo o que ele recolheu nos anos que passou atrás dos vestígios dessa história foi entregue à proteção do Estado e está no museu de Laguna.
Muitos outros pesquisadores e intelectuais investiram tempo e dinheiro na tentativa de afastar o véu de incertezas que cerca essa história de amor e guerras.
Causou bastante impacto o trabalho feito pelo jornalista Paulo Markun, que resultou num belo livro.
Celso Martins conclui dizendo que o relato mais fiel é o do próprio Giuseppe, feito ao escritor francês Alexandre Dumas.
“Tudo o que ele disse está no livro Memórias.
O resto são versões que, bem ou mal, alimentaram a construção do grande mito catarinense.
” Que bela história de nossa Anita, você não acha?
