O editor de um dos portais da internet em que escrevo solicitou minha ida a São Paulo. Este site queria lançar um novo link esotérico, onde o assunto astrologia obteria substancial espaço. Aproveitei a ocasião para rever um amigo que fora trabalhar na capital paulista. Por intermédio dele, produtor de televisão, conheci uma apresentadora da mesma emissora que me pediu para fazer seu mapa astral.
Ela me recebeu em sua casa com um sorriso afetuoso, reforçando a impressão que dela formara quando assistia a seu programa. Tendo nascida sob o signo de Áries, embora caracterizada por forte meiguice, também era impaciente e direta. Resolvi iniciar sua análise astrológica sem fazer rodeios.
Disse-lhe que seu mapa astral mostrava expressiva coragem e orgulho pessoal, revelando-a desde criança conhecedora da dificuldade para se manter dignamente no mundo. Na infância, percebera que seus pais não tinham tempo para lazer. Quando não estavam ocupados atendendo aos filhos, trabalhavam, e o romantismo sumira daquela relação há tempos, ausência que a filha ariana observava apreensiva, temendo que a mesma circunstância acontecesse consigo. No entanto, mantinha-se entre o casal, isto ela conseguia perceber, recíproca consciência fraterna, regada pela confiança mútua, ainda que só esporadicamente entremeada por algum afago ou carinho.
Crescendo neste quadro, a apresentadora ariana deu-se conta de que naquele lugar seria difícil levar a vida que gostaria, passando a acreditar que só bem longe poderia existir outro jeito mais digno de sobreviver. A idéia de ir embora à procura de outro rumo foi se fortalecendo com a passagem dos anos, porém sem encontrar uma fórmula prática viável. O tempo transcorria e ela não antevia como escapar daquela penúria.
Chegou a tentar esquecer semelhante aspiração, adequando-se aos limites e peculiaridades de seu lugarejo, afoita por qualquer outra oportunidade que a livrasse da drástica atitude, implícita na ruptura e no distanciamento. Sempre se tivera como valente, mas sem que esta valentia tumultuasse o próprio realismo.
Já havia escutado inúmeras histórias de pessoas que se aventuraram às metrópoles, raramente alguma tendo um desfecho feliz. Contudo, na região onde vivia, ou obrigava-se à terra já exaurida a produzir ou pedia-se amparo na cidadezinha, situada há poucos quilômetros, mas igualmente debilitada. Todavia, pedir é algo complicado para o ariano em geral, sendo o último recurso de que lança mão, acautelado pelo seu desejo de liberdade, um pouco exagerado nas pessoas deste signo, posto ser praticamente impossível a qualquer indivíduo viver sem recorrer esporadicamente a alguém.
O mapa daquela ariana exemplificava a ferrenha objetividade, típica de quem é deste signo, quando se propõe a priorizar o desafio da sobrevivência material, congelando quaisquer outros anseios destoantes. Foi assim que, perto de completar vinte anos, investiu-se de destemor e finalmente comprou a temida passagem de ônibus, viajando em direção a outro tipo de vida, já consciente da inutilidade de protelar semelhante atitude.
Perambulou considerável tempo conhecendo as intermináveis filas à procura de trabalho, geralmente mal remunerado e instável, exigindo-lhe tudo, embora pagasse quase nada. A auto-estima combalida foi-se temperando à força, resistente aos habituais insucessos, estes parecendo exercer um efeito contrário na ariana: quanto mais freqüentes, maior era a determinação e a adrenalina que nela geravam, numa ressentida e orgulhosa queda-de-braço com o destino e a sorte.
As pessoas de Áries são vistas como impacientes, voluntariosas e perseguidoras de seus objetivos, às vezes mais por capricho e preservação do orgulho pessoal, do que por real e íntimo apreço ou necessidade. Parece que receiam, acima de tudo, ficarem relegadas a um plano secundário. Há certa ponta de verdade nesta visão, mas é bem mais verdadeiro dizer que o motivo que as impele é a consciência de que a vida pode ser curta, algumas religiões dizendo que é uma só e, portanto, não deve ser desperdiçada com retraimento ou faz de conta.
O nativo deste signo precisa constatar de imediato sua capacidade de conquista. Mais adiante, no futuro, se irá ou não obter satisfação da decisão outrora tomada, não se arrependendo da precipitação original, quando semelhante ocasião chegar, ele confia que saberá reagir da forma adequada. Esta confiança na sua capacidade pessoal de improvisar, assim como funciona algumas vezes, em outras pode deixá-lo segurando apenas vento na mão, pagando caro pela sua falta de prevenção.
Todavia, sem que agisse assim, munido tão somente com a cara e a coragem, pouca coisa de concreto conquistaria em sua vida, já que, fosse depender de certeza absoluta quanto ao sucesso de seu empenho, antes de tentá-lo, talvez consumisse mais tempo perseguindo a fórmula ideal para certificar-se do êxito, do que o tempo consumido tentando uma, duas, três vezes para alcançar o objetivo desejado. Até porque as oportunidades não esperariam eternamente por sua decisão e iniciativa, além de ser necessário levar em conta o transitório vigor típico da juventude que, logo se esvaindo, não dura imorredouramente.
Assim, na filosofia ariana, quem espera muito, corre o risco de ficar esperando para sempre! Relembrando estas características de Áries, disse à apresentadora ser possível afirmar que arianos têm e não, ao mesmo tempo, orgulho; ou então que trocam vários pequenos orgulhos por outro mais grandioso e vital. Ela olhou-me com jeito inquiridor, passando a impressão de que não compreendera ou não concordara com o significado das últimas palavras que escutara. Esclareci dizendo-lhe ser motivado pelo orgulho que, em nome de um objetivo ideal, somente conquistado em longo prazo, arianos esclarecidos não se negam a sacrifícios menores, engolindo sapos e sofrendo humilhações, mesmo muito a contragosto.
Estas situações são vistas por ele como passaportes inevitáveis para se alcançar meta preestabelecida que realmente valha à pena, principalmente se a pessoa de Áries não nasceu em berço de ouro, com o mundo servido numa bandeja. Detestando perder e serem vencidos e, por causa disto, expulsos de qualquer processo de disputa, ficando seu orgulho reduzido a nada, conseguem legítimas proezas no âmbito do autocontrole quando escolhem expulsar para sempre de suas vidas os fantasmas da sujeição e da subalternidade.
Talvez a peculiar revolta ariana se origine bastante das fontes material e afetiva a que teve acesso, geralmente vistas como insuficientes e em débito para com ele. Ele é um batalhador nato que, no entanto, maldiz a própria batalha, sem chegar a evitá-la. A luta que precisa realizar é vista como fruto da má sorte de ter nascido como uma espécie de filho bastardo, a quem foi negado todos os privilégios da suposta nobreza, única merecedora da singeleza.
A falta de delicadeza nas condições de sua vida crua é sentida por ele de uma forma triste, pela qual secretamente chora, perguntando-se por que teve que ser maltratado desta forma, o conforto e o desvelo apenas roçando nele, sem chance para ambos.
Mas o que o ariano desconhece, ou finge não conhecer, é que o mundo é quase todo feito de pessoas comuns, tão ou mais vitimadas pela aspereza do que ele, das quais, no entanto, sente a necessidade de se destacar, no intuito de alçar-se até onde presumidamente estarão a dignidade e o afeto.
Assim, a dignidade é um valor indispensável para arianos. No entanto, é difícil caminhar de um desafio para outro sempre com ela à tiracolo, atrelada à sensibilidade. São tantos os obstáculos, que perde a concentração e quando chega onde deseja, chega sentindo-se diferente do que sempre foi, pouco se reconhecendo: metade do que melhor era e sentia sumiu, surrupiada por uns, trocada ou negociada com outros, amistosos ou críticos, mal sabendo estes últimos que também sempre agiram de forma semelhante, talvez procedendo até pior!
A atriz ouvia com ar absorto, mas o semblante permanecia indefinido, ora parecendo mostrar-se choroso e nostálgico, todavia logo voltando a ficar resguardado em imagem de fortaleza. Falei estas coisas quase sem pensar, impelido pela intuição, ao mesmo tempo constatando sobre o quanto aquelas palavras aplicavam-se também a certas etapas de minha vida. Perceber estes sentimentos pareceu-me como tendo valor superior a qualquer paga monetária, agora olhada como insignificante: meia dúzia de trocados que seriam esbanjados em bugigangas e quinquilharias, ridículas na sua impermanência! Retomei a leitura dizendo que destaque era algo ambicionado no mapa da ariana e destaque foi o que ela conseguiu.
Indicava também certa tristeza, mas não no tamanho e repercussão que as pessoas, conhecendo-a por ser uma figura pública, diziam ou queriam que ela tivesse. No entanto, aquela mulher possuía uma vida pessoal quase nula. Neste contexto, a notoriedade se tornara problemática por despertar a excessiva atenção dos outros, dos quais, há muito tempo e de alguma forma ou de outra, ela precisou se proteger. Isto porque inúmeras pessoas, desejando aproximar-se exageradamente, almejavam algum tipo de amparo, pedido e até mesmo exigido! Já outras, atacavam-na, movidos pelo intuito de derrubá-la, pelos mais variados e lamentáveis motivos, tendo como principal, o proibitivo fato dela ter se destacado. Assim, mal ou bem, estava demasiada atrelada e exposta à multidão.
Voltei a enfatizar a dificuldade ariana em precisar material e sentimentalmente de alguém, independente se isto ocorre em um plano íntimo ou superficial. Entretanto, pelo fato de a intimidade propiciar a revelação das mais temidas fragilidades pessoais, é encarada como superiormente ameaçadora à imagem de segurança e fortaleza que o indivíduo de Áries tanto prestigia e protege inclusive para si próprio! Assim, a necessidade de tornar alguém vital para ele não é feita serenamente, pelo contrário, exige do escolhido um conjunto de atitudes que não pode sofrer o menor deslize e oscilação, sob pena da imediata perda da confiança ariana nesta pessoa.
Ocorre que não há ser humano que não oscile e não cometa erros, mas que são, todavia, vistos pelo ariano como intencional menosprezo à sua dedicação. Esta precipitada conclusão o leva a frustrar-se muito cedo no vínculo, desestimulado pela intransigência e impetuosidade.Nas dificuldades típicas das relações sentimentais, grande parte do desprazer advém da imaturidade de quem se arvora prejudicado. A idealização e a amargura caminham quase juntas, entrelaçadas pela pressa, cativa de fórmulas e receitas, verdadeiras até curta estação. A complexidade dos relacionamentos não pode ser tratada com simplificação e obstinação em metas pré-concebidas, o jogo de cintura tendo relevância vital. Quem não se flexibiliza, sentindo-se proprietário da razão, permanece imaturo e desgostoso. Na órbita da troca afetiva, todas as pessoas são, ao mesmo tempo, geniais e loucas. Neste campo, não existe quem saiba tudo e quem nada conheça. O indivíduo melhor aquinhoado de atributos sempre terá algo a aprender e reformular, mesmo convivendo com a mais despreparada das criaturas. Assim, pretender-se pleno, perfeito ou auto-suficiente é sonho desvairado, destinado à desilusão.
Entretanto, no fundo, poucas pessoas pensam realmente assim, a grande maioria enxergando-se, conscientemente ou não, como já pronta, nada mais havendo para acrescentar-se. Semelhante indivíduo, deparado com a recusa alheia em compactuar com seu delírio, após inúmeras frustrações sentimentais, termina por fazer uma espécie de permuta: o agrado íntimo sendo trocado pelo público, respaldando-se mais neste último do que no primeiro, mas sempre nutrindo a incômoda sensação de que falhara em algo, cuja ausência, fruto da suspeitada inépcia, é fonte de angústia e solidão.
O sentimento de falha aflige com freqüência a personalidade ariana e o mapa da atriz não era imune a ele, não obstante a admiração e prestígio que havia conquistado. Porém, atingira fase na vida em que a admiração externa nada mais acrescentava ao seu estado de espírito. Mesmo assim, tentava consolar-se substituindo o povaréu, fácil de seduzir - e ansioso por ser seduzido - pela elite política, econômica e cultural, mas nesta última encontrando escassa guarida.
Embora não percebesse, a atriz caíra numa armadilha muito comum para quem, gozando de fortuna e celebridade, não consegue estabelecer relação amorosa permanente. O fato é que a troca afetiva, junto com seus reconfortantes benefícios, também funciona como salvaguarda ou antídoto aos muitos engodos, tentações e miragens que pululam na vida. Desta forma, tanto a riqueza quanto a penúria, no tocante à relação sentimental entre um casal, possuem seus prós e contras. O casal em crise e com limitações econômicas, pensará inúmeras vezes antes de optar pela separação.
Nesse entremeio, vários pontos de conflito podem se desvanecer ao natural, o aperto financeiro servindo como mordaça às reações precipitadas frentes à desilusões e infantilidades mútuas, ambas mascarando o vedetismo narcisista. Ainda que, no geral, a maior fonte de tormentos na maioria dos casamentos seja o dinheiro, ao lado do ciúme, à medida que o casal sinceramente conforma-se de ficar à margem dos apelos de consumo, outras predileções, algumas gratuitas, vão sendo desbravadas, esclarecendo e libertando o espírito, algo muito mais possível do que nega e contesta a propaganda. Assim, o aperto financeiro também contém uma certa utilidade, pois obriga os casais a enfrentar os pontos de atrito.
Escolhendo cuidadosamente as palavras, falei isto tudo para a ariana. Sentindo que ela estava receptiva, continuei nesta linha de raciocínio. Disse-lhe que o ato de abdicar do desafiador convívio sentimental íntimo, em prol da aclamação pública, não é monopólio apenas das personalidades célebres. A estas, quando lhes ocorre, pode dar-se apenas o rótulo de serem mais gulosas, uma vez que não se contentam com prestígio de dimensão modesta, algo que em menor ou maior grau, qualquer pessoa comum busca e ajeita-se. Sempre que, dentro do lar, algum participante desiste de lutar pela harmonia, com certeza irá buscar tal anseio em outro lugar, que poderá ser, talvez, inclusive outro lar, ninguém podendo tirar-lhe semelhante direito. Costuma-se argumentar que a pressão ou opressão financeira está por detrás desta atitude, parcialmente justificando-a, mas isto acontece também em lares ricos: fosse este o motivo seriam modelos de felicidade. Assim, só a economia não explica semelhante comportamento.
Agora a atriz olhava-me com ostensiva curiosidade. Senti haver tocado em algum ponto delicado seu, cujas inúmeras dúvidas geravam ansiedade e irritação. Qualquer pessoa sente dificuldade em lidar com aquilo que não conhece e não compreende dentro de si. O nervosismo se transforma em agressividade, ambos refletindo o medo.
Séria, a ariana pediu-me que fosse mais minucioso na análise das implicações entre a fama e sua vida íntima, perguntando por que havia muitas pessoas famosas que, no entanto, eram felicíssimas em suas vidas particulares, e outras, dando a entender que se incluía neste último rol, pareciam fadadas à desarmonia, impotentes frente à solidão.
Respondi-lhe então que a fama geralmente advém da profissão, e que esta não é e nem jamais será, tudo! A pessoa que se respalda demais na própria profissão exagera nesta atitude de autodefesa, usando-a para mascarar outras facetas suas, suspeitadas como não tão atraentes ou elogiáveis.
Pretender levar para o vínculo íntimo o deleite consequente do sucesso profissional pode ser uma ação bastante arriscada, posto que gera automática desigualdade: a parte mais fraca sentir-se-á desprestigiada, e até mesmo agredida, mesmo que inicialmente afirme não dar valor para isto. O íntimo pertence ao íntimo, assim como o que é público deve permanecer à parte e, querer misturá-los, é algo perigosamente inadequado para o vínculo. O público está ligado ao mito, à imagem e ao poder, fatos que não têm sentido se esgrimidos no âmago do relacionamento amoroso, onde aparências não devem ter a mínima importância.
O parceiro ou cônjuge que não deseja se abrir para aprender com o outro, procede desse jeito, possivelmente por entrar na relação esperando ser somente glorificado, vendo qualquer reação diferente do companheiro como prova de desamor. Portanto, o respaldo no apreço público pode ser enganador, uma vez que gera miragens quanto à identidade pessoal, na qual insanamente passa-se a acreditar, desprovido de autocrítica. Dito isso tudo, a cliente retrucou que há muito tempo não se importava mais com a fama, a ela sujeitando-se apenas como sendo um mal necessário, restrito aos cavacos do ofício.
Após ouvi-la, permaneci quieto alguns instantes, alinhavando a próxima argumentação. Tão logo organizei o pensamento, insisti-lhe que era necessário separar melhor uma vida da outra. O sucesso profissional alcançado lhe trouxera segurança suficiente para ela poder se dedicar às emoções da vida íntima e da privacidade, não mais precisando se obstinar em exibir-se para as massas a todo o momento. Sem deixá-la falar, acrescentei que o sentimento de euforia que experimentou nos períodos iniciais de celebridade não iria retornar.
Sendo algo pertencente ao passado, nele insistir seria apenas fazer um plágio deslocado de si mesma, mera variação obsoleta sobre o próprio tema A alegria deveria ser buscada doravante em outra fonte, distante da ovação social. Tomado por um sentimento de impaciência com a apresentadora, cujo procedimento no campo afetivo identifiquei caracterizado pelo imediatismo simplista, perguntei-lhe se já não se sentia capacitada para desarmar seu espírito, parando de eternamente se defender e justificar.
Talvez agora ela estivesse entrando em um período adequado para aprender, e não para ensinar, emendei-lhe. Ora, completei, uma pessoa aprende, verdadeiramente, no relacionamento íntimo, onde papéis e poder nada importam, sendo desnecessária qualquer encenação. Fugir do relacionamento é evitar o aprendizado, e dar importância para o que as pessoas de fora dizem, sejam próximas ou distantes do casal, tem sido um motivo muito utilizado pelo ser humano em geral para justificar sua eventual disparada.
Agora foi a vez de a ariana falar, dizendo que, nesta linha de pensamento, voltávamos ao ponto original do seu dilema, ligado à importância que dava à opinião e aceitação alheias. Surpreendendo-me, novamente foi ela quem esclareceu que as pessoas vivem em função de terceiros bem mais do que imaginam. Mas essa vida emendou, não é vivida apenas por dedicação e puro apreço a outrem, sendo também conduzida, e muito, pelo medo da solidão. Após estas palavras, ambos ficamos silenciosos, aquilatando o impacto do seu significado em nossas específicas rotinas.
Não faltava inteligência para a ariana e ela, quando decidia falar sério, mostrava que entendia bem mais do que aparentava a causa de seus conflitos e das pessoas em geral. A sinceridade que demonstrou estimulou-me a ser direto, sem sopesar tanto as idéias, receoso de melindrá-la. Por isto, falei que a achava precipitada no referente a sentimentos, tratando infantilmente esta área de sua vida, razão pela qual permanecia internamente solitária. E, continuei, pelo fato de sentir-se segura materialmente, sua auto- intransigência ficava bem maior, transformando qualquer pequeno ruído afetivo em colossal estrondo!
A parte ariana que transforma ruído em estrondo é aquela que tem medo de revelar-se; talvez a mais bonita, embora quem é deste signo suspeite que seja a mais feia. Agindo assim, procede como sendo fada disfarçada de bruxa mendicante, para ver onde é que está pisando.
A qualidade da reação do companheiro é que definirá para a pessoa de Áries se deve retirar ou não o disfarce de bruxa, mostrando-se fada. E era exatamente neste ponto que a apresentadora cometia seu erro. Um tanto iludida por seu temor, esquecera que a mesma dualidade, fada-bruxa, também ocorre com seu parceiro, uma vez que acontece com todas as pessoas, em menor ou maior grau. Disse-lhe isto achando que ela ficaria brava, mas tal não aconteceu, para meu alívio. Ela apenas ficou me olhando, quieta, mas não necessariamente triste ou incomodada. Pareceu-me que sua impaciência agora se voltara contra si mesma, não sem uma ponta de saudável irreverência e gozação com o próprio sofrimento, visto sob um ângulo menos fatalista.
Recebi meu dinheiro e fui embora. Eventualmente, alguém de passagem por Porto Alegre, seguindo a indicação desta ariana, procura-me. Fiquei sabendo, desta forma, que ela estava vivendo com um funcionário público, procurador de justiça, praticamente desconhecido. Alguns dias depois, ao telefone, brinquei com ela: no tocante à profissão do seu companheiro, procurador de justiça, você, ariana, que na maior parte de sua vida se sentiu injustiçada, tem tudo a ver!
Para saber mais: julioflores@via-rs.net
